Apesar de alguns avanços, compromisso antirracista para o mundo se mostra urgente frente a retrocessos no cenário internacional em políticas de inclusão e diversidade *Por Juliano Guedes
Em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) deu início à Primeira Década Internacional para Afrodescendentes, sob o tema “Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento”. Essa iniciativa justifica-se pela urgência de combater as desigualdades enfrentadas por afrodescendentes em todo o mundo. Em dezembro de 2024, a Assembleia Geral da ONU proclamou a Segunda Década Internacional de Afrodescendentes, com início em 1º de janeiro de 2025 e término em 31 de dezembro de 2034 que, ao mesmo tempo em que considera as conquistas da Primeira Década (2015-2024), reconhece a premente necessidade de continuidade das ações, diante do cenário global de intensificação do racismo estrutural e avanço de discursos fascistas que tentam restaurar ideologias de superioridade branca.
A Primeira Década Internacional para Afrodescendentes trouxe avanços significativos, como o fortalecimento de legislações antirracistas e a implementação de programas de ação afirmativa, incluindo cotas para acesso à educação superior e ao mercado de trabalho. No Brasil, país que mais avançou nesse sentido no período, por exemplo, a Lei de Cotas nas universidades foi um marco que ampliou as oportunidades para a população negra, impulsionando o aumento do número de profissionais negros em áreas anteriormente inalcançáveis.
Essas são constatações de pesquisas que mostram a presença de negros já formados no mercado, mas o subaproveitamento dos mesmos.
Outro avanço observado no período da Primeira Década Internacional foi a efetivação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR), que articula políticas públicas de combate ao racismo e promoção da equidade racial.
O SINAPIR foi instituído pela Lei nº 12.288/2010 (Estatuto da Igualdade Racial) e regulamentado pelo decreto nº 8.136/2013 para atuar na organização e articulação e implementação do conjunto de políticas e de serviços direcionados à superação do racismo em todo território nacional. Ao todo, são 187 municípios integrados ao SINAPIR. Desses, 135 afirmaram possuir órgãos de Igualdade Racial, sendo constituídos.
Para que não falemos somente de avanços no Brasil, internacionalmente, alguns países fortaleceram políticas de reparação histórica. Na Colômbia, a adoção de políticas de reconhecimento dos direitos das comunidades afrodescendentes destacou-se. Um bom exemplo é o Programa Quilombo das Américas que, em parceria com o Brasil, instituiu o projeto com o objetivo de criar um espaço de articulação e cooperação entre essas comunidades, promovendo o reconhecimento de seus direitos, a preservação de suas culturas e a justiça social e racial. A meta é construir uma rede de cooperação interinstitucional e impulsionar projetos de cooperação internacional, com foco no fortalecimento cultural, sustentabilidade ambiental e resistência comunitária.
1. Direitos Territoriais – Busca garantir a regularização dos territórios das comunidades afrorrurais, reconhecendo suas reivindicações históricas por acesso à terra e segurança territorial.
2. Conservação da Biodiversidade – Promove práticas de gestão ambiental sustentável nas áreas onde essas comunidades vivem, preservando a rica biodiversidade das regiões e mitigando os impactos das mudanças climáticas.
3. Identidades e Ancestralidades Afrodescendentes – Valoriza e preserva o patrimônio cultural afrorrural, com o reconhecimento das tradições e práticas ancestrais como fundamentais para a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente.
4. Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) – Apoia a produção agrícola dessas comunidades, incentivando a preservação de tecnologias tradicionais que garantem a sustentabilidade alimentar e a segurança climática.
5. Políticas de Cuidado e Estratégias contra Violências – Implementa e fortalece políticas públicas que protejam essas comunidades da violência social, racial e ambiental, com especial atenção às mulheres e crianças.
Ações como essas evidenciam como a pauta afrodescendente transcende fronteiras, exigindo colaborações globais.
Ao longo do período da Primeira Década, mais de 30 países mudaram suas leis e políticas para combater a discriminação racial; e iniciativas das Nações Unidas capacitaram jovens líderes afrodescendentes, celebraram a herança e cultura afrodescendentes e, em 2021, levaram à criação do Fórum Permanente de Afrodescendentes.
Entretanto, esses avanços não foram suficientes para eliminar as desigualdades raciais. O racismo estrutural persiste, evidenciado por indicadores sociais alarmantes:
Além disso, uma pesquisa do Instituto Ethos revelou que, em 2017, a expectativa para alcançar igualdade racial no mundo corporativo era de 150 anos, aumentando para 167 anos em 2021. Esses desafios reiteram o entendimento de que o comprometimento coletivo é essencial para consolidar os ganhos na luta por equidade racial.
Reconhecimento, justiça e desenvolvimento, pilares desta Segunda Década, exigem ações mais robustas e abrangentes. Em um contexto de recrudescimento do racismo e da intolerância, é crucial intensificar os esforços em diversas frentes:
O Brasil, com uma das maiores populações afrodescendentes do mundo, tem assumido protagonismo em ações de promoção da igualdade racial.
O país tem a segunda maior população negra do mundo, aproximadamente 110 milhões, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2019 – PNAD. Em números absolutos, perde apenas para a Nigéria, que tem uma população negra de 190 milhões.
O lançamento de um novo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS 18), o qual abordei durante o Mês da Consciência Negra, nesta Coluna Odabá, na Sler, focado na equidade racial, demonstra o compromisso do país em colocar o tema na agenda internacional. Além disso, a criação do Ministério da Igualdade Racial fortalece as políticas públicas voltadas à população negra, garantindo maior estrutura e alcance dessas iniciativas.
A implementação de programas como o SINAPIR e a ampliação de políticas de cotas em diversas esferas do setor público e privado são exemplos de ações que, apesar dos desafios, têm gerado impactos significativos. Contudo, o cenário ainda enfrenta contratempos, como o aumento de células neonazistas no país, especialmente na região Sul, o que evidencia a necessidade de maior vigilância e combate ao extremismo racial.
Vivemos em um período em que o avanço de governos autoritários tem promovido retrocessos nas políticas de inclusão e diversidade. A administração de Donald Trump, por exemplo, já nos primeiros dias do novo governo, desmontou programas voltados à equidade e reuniu bilionários para reforçar desigualdades. Em paralelo, plataformas como as de Mark Zuckerberg foram acusadas de tolerar expressões racistas, enquanto o bilionário Elon Musk gerou polêmica ao fazer gestos considerados nazistas em discursos públicos. Esse contexto global reflete uma crescente tentativa de restabelecer narrativas de superioridade branca, alimentando movimentos neonazistas e fortalecendo discursos de ódio.
A continuidade e intensificação das ações dependem do engajamento da sociedade civil. Organizações como a Odabá e coletivos negros desempenham um papel crucial na construção de redes de suporte e na implementação de iniciativas de impacto. O fortalecimento do afroempreendedorismo e de projetos que incentivem o protagonismo negro também são ferramentas fundamentais na luta por igualdade.
Além disso, é imprescindível que a sociedade branca assuma o compromisso com a pauta racial, compreendendo que a luta antirracista não é apenas uma causa dos negros, mas uma responsabilidade coletiva para construir um mundo mais justo.
O racismo não é apenas uma mazela social à parte. É, também, um problema econômico que causa severas distorções sociais que originam desigualdades de emprego e renda no país. É a partir da estrutura do racismo que se perpetuam as desigualdades observadas desde os períodos coloniais ao longo da própria história de formação e organização do Brasil. O mesmo ocorre em outros países que convivem com as chagas das heranças da colonização. Assim, a Segunda Década Internacional para Afrodescendentes, em nível global, é uma oportunidade única da ONU e dos países membros aprofundarem o compromisso com a equidade racial, colocando-a no centro de suas prioridades, como um compromisso global antirracista institucional.
Reconhecer as conquistas é importante, mas há uma longa jornada pela frente. Apenas com ações integradas e o engajamento real de todos poderemos enfrentar os desafios do racismo estrutural e construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Que este seja um período de avanços concretos e transformações duradouras.
E para você, qual é o seu compromisso antirracista para os próximos anos?
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Década Internacional de Afrodescendentes
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Censo 2022 – Base dos Dados
Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil | Educa | Jovens – IBGE.
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Negros são 75% entre os mais pobres; brancos, 70% entre os mais ricos.
Entre os 10% com maior rendimento per capita, brancos são 70,6% enquanto os negros são 27,7%; já entre os 10% mais pobres, a situação se inverte: 75,2% são negros, e 23,7%, brancos.